No meio de uma floresta, muito muito longe de qualquer cidade, vivia uma comunidade de pássaros. Eram muitos, de todos os tipos e idades, cada um com as suas cores e os seus cantos.
Lá, no meio de uma árvore bem alta, vivia uma coruja de olhos estrelados. Muito séria e muito sabida, ela ficava muito tempo quieta, até que chegava alguém para conversar com ela. Daí, ela falava. E muito. Principalmente quando lhe faziam perguntas. Ah, a Coruja fazia longas palestras, detalhadas, sobre tudo o que sabia. E sobre o que não sabia, se arriscava. Porque, pensava ela, antes uma pássara sabida, adivinhando, do que um tolo qualquer, inventando.
A casa da Coruja era muito especial. Uma bela fenda que a Fortuna tinha tratado de fazer em uma das árvores mais frondosas da floresta. Toda decorada e arrumada a seu gosto, tinha bastante espaço e conforto para si e para suas visitas, que não eram poucas. A Coruja era mesmo muito querida e respeitada. Vivia só, por escolha, porque gostava de poder escolher o silêncio quando quisesse. Mas, sentia que aquilo não era tudo, que a vida esperava um pouquinho mais dela. Um companheiro, quem sabe, poderia ajudar a Coruja a ir um pouquinho mais longe. Ou melhor, mais fundo.
É, e a Coruja conhecia muitos pássaros. Muitos interessantes e muitos interessados. Mas a coincidência de interesses não acontecia facilmente. Então, a Coruja esperava, paciente e contente com sua vida. Estava certa de que o que fosse para acontecer, aconteceria na hora certa.
E foi numa virada de ano. Muitos amigos pássaros estavam reunidos, a maioria, velhos conhecidos. Um passarinho Curió em especial, muito atraente e talentoso insistia em chamar sua atenção. A Coruja retribuía, atenciosa, mas achava que daquilo nada mais se daria. Até que uma certa hora, quase no fim das festas, o passarinho se achegou numa conversa da Coruja com um casal de amigos, o Tucano e a Beija-flor, e perguntou para eles: Ei, me diga aí, como é que vocês se beijam? Nem me perguntem o porquê, mas aquilo mexeu com a Coruja. A respiração parou, o coração disparou enquanto suas bochechas vermelhas entregavam a situação... Sabe lá Deus que foi que houve, mas a Coruja começou a olhar aquele Curió com outros olhos.
Além da beleza e talentos evidentes, a Coruja foi notando que o Curió era pássaro bom, de coração nobre. Seu olhar curioso vinha de uma ingenuidade genuína, que já passava da hora de tê-la perdido, mas que a Providência permitiu que a conservasse, quem sabe para a vida inteira. Curió era também muito íntegro e trabalhador. Gostava de estar junto, ajudando. E do seu olhar observador, presente, brotava uma graça, de fazer os outros pássaros rirem e sorrirem. A Coruja foi gostando mesmo do Curió e Curió foi gostando mais da coruja.
Curió continuou se aproximando e a Coruja foi deixando ele chegar cada vez mais perto. Curió já vivia mais com a Coruja do que em qualquer outro lugar, quando resolveu de mudar de vez para junto da Coruja. Não que Curió e Coruja fosse assim casal muito comum, mas vai entender os mistérios desta vida.
A Coruja, feliz que era de viver só, foi se acostumando aos poucos com o novo presente. O passarinho era alegre e a Coruja foi gostando cada vez mais de morar com ele. Mas Curió é pássaro de voar solto e disso a Coruja não sabia. De coração tão verdadeiro e fiel, a Coruja achou que o Curió queria mais era sossegar-se por lá. Qual o quê?!? Curió é pássaro que não tem dono. Pode até ter uma só pousada, mas não pode prometer nada. É pássaro desprendido.
Nem Curió sabia direito o que incomodava, quando as coisas começaram a ficar estranhas. A inquietude foi crescendo no peito dos dois. Curió queria sair, mas gostava da Coruja. A Coruja queria que o Curió ficasse, mas amava demais a Liberdade para prendê-lo.
De tanto um querer manter o que o outro quer mudar, a coisa explodiu e Curió falou: eu vou. E foi de saída. Mas, chegando na porta, parou. Virou e olhou para a Coruja, parada, paralisada. A Coruja fechou os olhos, respirou e aceitou. Abrindo os olhos, ergueu a asa direita e acenou um tchau curto. Curió voou. Coruja foi até a janela para ver o vôo bonito do Curió.
... e lá do alto, a Coruja de olhos estrelados falou: "vai, Curió, voa, que esse céu é seu, vai buscar as luzes que colorem a sua alma. E, quando assim desejar, volte, passarinho, para se nutrir da sua própria fonte, que este ninho também é seu".
E Curió entendeu que podia ir, sem partir. E foi. E voltou. Livre. Inteiro.
Sou a poesia que me habita.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
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