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Sou a poesia que me habita.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Dúvidas que sei

Todo dia eu amanheço 
Um novo dia dentro de mim 
Novos olhos
Para velhas questões
Novos encontros 
Com velhas opiniões 

Sigo assim
Misturando o que vejo
Com o que sinto
O que desejo 
Com o que nem percebo

Para chegar ao fim
Do novo dia em si
Com novas formas de ser
E muito mais para descobrir

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

João do Rio

João cuidava do rio 
Era só o que fazia, por anos a fio 
Sua única meta e vocação 

Seu movimento, ele observava 
Sua trajetória, ele então planejava 
Para seu curso corrigir 

A corrente era orientada 
Para que as margens fossem banhadas 
Plantas e peixes, alimentados 

Se muito chovia 
A terra, João movia 
Para que a água não se excedesse 

Quando o sol escaldava 
Coberturas, João arranjava 
Para que a água não se evaporasse 

Fazia isso, João, desde menino 
Dia a dia, cumpria este destino 
Só do rio se ocupava 

Até que um dia, muita chuva se deu 
João resistiu, mas então cedeu 
Caiu no Rio e se rendeu 

Sua presença, a água convocou 
Sua consciência, reorientou 
De fora, para dentro 

A torrente o embalou 
E João se entregou 
Sem pensar se deixou 

Enquanto esvaziava, recebia 
O que até então não percebia 
Foi fazendo sua travessia 

Quanto mais se diminuía 
Mais longe alcançava 
O Supremo vivenciava 

A chuva agora cadenciava 
E joão já realizava 
Sua existência limitada 

O Fluxo ele não comandava 
Apenas sem saber, navegava 
Numa Sabedoria há tempos instaurada 

Sua mente utilitária 
Era só peça secundária 
Naquela confluência de devoção 

Na labuta diária de joão 
Seu querer pouco importava 
O Rio ele não controlava 

Por sua lealdade comprovada 
Sua função subiu uma oitava 
E tornou-se do Rio um guardião 

Percebeu, então, que essa guarda 
Era só o que fazia, mesmo enquanto se enganava 
Pois era sempre o Rio que de joão cuidava