João cuidava do rio
Era só o que fazia, por anos a fio
Sua única meta e vocação
Seu movimento, ele observava
Sua trajetória, ele então planejava
Para seu curso corrigir
A corrente era orientada
Para que as margens fossem banhadas
Plantas e peixes, alimentados
Se muito chovia
A terra, João movia
Para que a água não se excedesse
Quando o sol escaldava
Coberturas, João arranjava
Para que a água não se evaporasse
Fazia isso, João, desde menino
Dia a dia, cumpria este destino
Só do rio se ocupava
Até que um dia, muita chuva se deu
João resistiu, mas então cedeu
Caiu no Rio e se rendeu
Sua presença, a água convocou
Sua consciência, reorientou
De fora, para dentro
A torrente o embalou
E João se entregou
Sem pensar se deixou
Enquanto esvaziava, recebia
O que até então não percebia
Foi fazendo sua travessia
Quanto mais se diminuía
Mais longe alcançava
O Supremo vivenciava
A chuva agora cadenciava
E joão já realizava
Sua existência limitada
O Fluxo ele não comandava
Apenas sem saber, navegava
Numa Sabedoria há tempos instaurada
Sua mente utilitária
Era só peça secundária
Naquela confluência de devoção
Na labuta diária de joão
Seu querer pouco importava
O Rio ele não controlava
Por sua lealdade comprovada
Sua função subiu uma oitava
E tornou-se do Rio um guardião
Percebeu, então, que essa guarda
Era só o que fazia, mesmo enquanto se enganava
Pois era sempre o Rio que de joão cuidava
Sou a poesia que me habita.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Assinar:
Postar comentários (Atom)
;)
ResponderExcluir